18 novembro 2006

Uma Linha Recta

Comemoração do Centenário do Nascimento do Professor Agostinho da Silva
In Memoriam, Luis Carlos dos Santos

UMA LINHA RECTA

1. Memórias de uma viagem ao Brasil

Um belo dia, numa reunião ordinária da Cooperativa de Animação Cultural de Alhos Vedros, alguém propôs que se convidasse o Professor Agostinho da Silva para proferir uma palestra a integrar o Programa do 5º aniversário. E a palestra acabaria por se fazer, no dia 9 de Maio, à tarde, no ido ano de 1989, no Centro de Reformados da Vila. Já não me recordo do título preciso da oratória, mas era qualquer coisa como “A Cultura Portuguesa e a Preparação do Futuro”. Quando mais tarde a publicámos em livro, a partir de registo gravado, chamámos-lhe “Namorando o Amanhã”.

Deste encontro, entre Alhos Vedros e o Professor Agostinho da Silva, haveria de nascer uma amizade profícua que não mais terminou. Depois da palestra, o Professor começou a enviar umas cartinhas que nunca ficaram sem resposta. Era um hábito seu manter correspondência escrita com todos os amigos.

E foi na sequência desta troca de cartas que decidimos de novo fazer-lhe uma visita. Sabíamos que ele tinha por costume receber em sua casa amigos que se prestassem à conversa e, se bem o pensámos, mais depressa o fizémos. Infelizmente, essa visita não foi bem sucedida, porque o professor tinha sido apanhado por uma traiçoeira intoxicação alimentar que o levara a internamento hospitalar.

Mas o encontro com o Professor estava marcado pelo destino e teve até bastante graça como aconteceu. Algum tempo depois dessa frustrada visita, e quando o ano de 1991 já caminhava para o seu término, haveríamos de fazer uma viagem até ao Brasil. Quando saíamos de Manaus para São Salvador da Baia, ao entrarmos no avião, embora os lugares estivessem quase todos vazios, havia um indivíduo sentado no lugar que me pertencia. Ali estava, disse-me ele, porque tinha bilhete de “não fumadores” e como lhe dera vontade de fumar um cigarro ajeitara-se ali. Conversa puxa conversa, viémos a saber que se tratava de Cláudio da Costa Lima, companheiro em viagem de seu tio, Epaminondas da Costa Lima, proprietários da empresa que fabricava a Jurubeba, Leão do Norte, uma bebida com fórmula de vários frutos que começou a ser produzida, em tempos idos, pelo avô do primeiro e muito consumida em várias partes do Brasil.

Ora, viémos também a saber que os dois cavalheiros tinham convivido bastante com Agostinho da Silva e referiam-se a ele com muita familiaridade. Um dos irmãos de Epaminondas, antropólogo, terá até trabalhado no Centro de Estudos Afro Orientais e, se não nos falha a memória, feito trabalho de campo no norte de África ao abrigo desta instituição que como sabemos foi criada pelo Professor. Por sua vez, Epaminondas que devia ter uma idade próxima à de Agostinho, era professor universitário e poeta, actividades que tinha partilhado com ele durante muito tempo. De regresso a Portugal, depois de termos visitado a dita empresa e do Cláudio nos ter gentilmente guiado pelas ruas de São Salvador, ficámos portadores de uma carta, de umas garrafas de Jurubeba e de um livro de poesia do próprio Epaminondas para Agostinho da Silva, Do Simples Viver (Editora Pasárgada, São Paulo, 1983), livrinho que, diga-se, tem um poema lindíssimo que lhe é dedicado.

Claro que, chegados a Portugal, lá fomos entregar a encomenda à casa do Professor, tendo-se constituído esta como a primeira visita efectiva de mais uma quantas, ao nº 7 da Travessa do Abarracamento de Peniche. Primeiro à casa do Professor e, depois, à casa da sua vizinha e companheira de muitos anos, Maria Violante Vieira, Presidente da Unicef em Portugal e primeira Presidente da Associação Agostinho da Silva.

De Maria Violante, entre uma mão cheia de boas recordações, ficou-nos um livro por ela oferecido, “avant-garde na bahia”, de António Risério, (Edições instituto lina bo e p. m. bardi, São Paulo, 1995), onde se dá conta da importância que um grupo de intelectuais e artistas terá tido na vida cultural do Brasil, e da Baía em particular, nos anos 50, onde aparece em lugar de relevo o nome de Agostinho da Silva. Aparece-nos esse grupo no livro, como os percursores de reconhecidos movimentos culturais e artísticos que haveriam de se desenvolver nas décadas de 60-70 no Brasil, como foram a Bossa Nova, o Cinema Novo e a Tropicália, onde encontramos nomes como os de João Gilberto, Glauber Rocha, Caetano Veloso, Gilberto Gil, entre muitos outros.

2. A Livraria Uni Verso, em Setúbal

Em determinada altura, por indicação do Professor, contactámos com uns amigos de Setúbal, João Raposo Nunes e Maurícia Teles, proprietários da Livraria Uni Verso, que mantinham com ele uma relação especial de amizade. Agostinho gostava de apresentar os amigos. Recordo-me de uma visita que fiz a sua casa. Quando entrei já lá estava outro visitante e, logo a primeira coisa que o Professor fez, foi promover a troca de correspondências, porque, dizia ele, nunca se sabia se por detrás daquele encontro não se escondia uma qualquer intenção do destino.

A Livraria Uni Verso era bem frequentada e fizémos mais amigos. Nesses primeiros tempos, lembramo-nos particularmente da professora Maria Eduarda da Rosa e do escritor Luiz Pacheco. Percorríamos, então, o ano de 92 e, naquela altura, decorria na Livraria um Ciclo de Estudos Gerais Gratuitos, dinamizado por diversas pessoas de várias áreas que iam desde as “Invenções” do António Doroteia, até aos poemas do Camilo Pessanha, ditos pela Eunice Munoz, entre outros.

Outro grande acontecimento que passava, e ainda passa, pela Livraria Uni Verso, são as Festas do Espírito Santo, sempre comemoradas todos os anos no Domingo de Pentecostes e que, tanto quanto sabemos, também foram impulsionadas por Agostinho da Silva, conjuntamente com o João Nunes e a Maurícia Teles. Sabemos que também António Quadros, nesse tempo, por lá andava (e ainda anda!...). Pela nossa parte, já participámos várias vezes na Festa e lá temos encontrado outros amigos da Associação Agostinho da Silva, de Lisboa, e do CADA (Círculo de Amigos do Agostinho), do Porto, este sempre representado pelo inesquecível amigo Ilídio de Sousa. Mas muitos outros poderiam ser referidos.

Foi a partir de convite do Professor Ilídio de Sousa que participámos, no Porto, no Colóquio Vida e Obra de Agostinho da Silva, em Junho de 1997, onde tivemos a honra de ter como parceiros de mesa os Professores Paulo Borges e Pedro Teixeira da Mota.

Desde a primeira ida à Livraria Uni Verso até hoje, muitas foram as iniciativas e os encontros que juntos levámos a cabo, sempre marcadas também pela participação dos amigos da Cooperativa de Animação Cultural de Alhos Vedros. Desde logo, a começar pelas minhas visitas frequentes, onde ainda delas fazemos uma vida conversável e se continua a poder desfrutar da omnipresença de Agostinho da Silva. Depois foi lá que fizémos a publicação de dois livrinhos, Do Convento (1996) e O Estandarte da Paz (2003), sem dúvida, também eles marcados, aqui e ali, pelas influências que o Professor nos deixou. E, por agora, fiquemos por aqui.

3. A Cooperativa de Animação Cultural de Alhos Vedros

Temos vindo a participar, faz já muito tempo, no projecto que a Cooperativa de Animação Cultural de Alhos Vedros tem vindo a delinear para a região envolvente. Desde que Agostinho da Silva por cá passou, em 1989, foi tão boa a semente deixada que não mais parou de se desenvolver. De facto, são já inúmeras as actividades ocorridas na região que trazem consigo o nome e o pensamento do Professor.

Para referenciar todos esses acontecimentos podemos começar por assinalar a troca de correspondência que ele impulsionou.
Depois lembramo-nos de uma noite de Lua-Cheia, um evento que a Cooperativa organiza periodicamente, que foi dedicada a Agostinho da Silva e ao Culto Popular do Espírito Santo, onde participaram o João Nunes e a Maria Eduarda da Rosa.
Na área dos livros, já que vai também a Cooperativa promovendo algumas edições, lembramo-nos do Bolinando (1994), uma antologia poética ilustrada que se constituiu também como uma singela homenagem ao professor; do Namorando o Amanhã (1996), o livro que contém a palestra do Agostinho, como já foi dito; e, ainda, uma brochura, As Últimas Cartas do Agostinho (s/d), onde foram editadas as cartinhas que ele nos foi enviando.
Foram também muitas as Conferências que a Cooperativa foi organizando, ao longo do tempo, sobre a vida e a obra de Agostinho da Silva. Abdul Cadre, Helena Briosa e Mota, Maurícia Teles, Risoleta Pinto Pedro e José Flórido, foram alguns dos autores dessas palestras que prontamente se dignaram a colaborar connosco.
Por fim, pôs a Cooperativa a funcionar uma Escola assente num espírito de livre aprendizagem que se denomina, precisamente, Escola Aberta Agostinho da Silva, onde se tentam pôr em prática algumas das ideias que o Professor tinha sobre como deveria funcionar uma Escola. Este ano lectivo tivémos sessões de Filosofia para Todos, um Ciclo de Estudos de História Local, um Atelier do Optimismo e um ciclo de Estudos Gerais, coordenados respectivamente pelo Professor Luis Mourinha, Professor Joaquim Raminhos, Psicólogo José Miguel Oliveira e Professor Luis Carlos dos Santos. Já existem novos cursos propostos para o próximo ano lectivo.

A herança é imensa, os amigos agradecem. Mas o Projecto precisa de continuar porque é da doce e paradoxal alegria de viver que se trata, mais uns pozinhos de eternas essências. Vocês não acham?

Alhos Vedros, Junho de 2005


SANTOS, Luis Carlos dos - Uma Linha Recta, in EPIFÂNIO, Renato (outros) (orgs.), In Memoriam de Agostinho da Silva (100 anos, 150 nomes). Corroios: Zéfiro, Nov.2006, pp.299-302.

2 comentários:

Dialógico disse...

E EU ESTIVE LÁ. Assisti a esse grande momento da História da CACAV. No dia 9 de Maio de 1989, estive lá entre a assistência para ouvir o filosofo mais mediático de Porrtugal. Mediático, não porque ele fizesse questão disso. Mas mediático,porque alguém das televisões se lembrou (e bem)de dar tempo de antena a uma voz de liberdade (ou melhor, de livre pensamento).
Mas eu estive lá. Estive lá e pude assistir a um momento excepcional de Filosofia. Mas, para além disso e talvez ainda mais do que isso, esse momento e muitos outros revelados neste Post, mostram à evidência um percurso fabuloso da CACAV.
Parabéns!

Ass: Luís Mourinha

Edições Casa de Estudos de Alhos Vedros (CEAV) disse...

Então, parabéns para ti também.