16 março 2006

Agostinho da Silva - Carta VII

Queridos Amigos

Ouçam então, que a história é simples. Há uns quinhentos ou seiscentos anos fomos expulsos de Portugal, por desagradarmos a Reis mais interessados na Europa do que na Península e a Papas para os quais o que ia importar era o movimento das descobertas, que fomos expulsos e proibidos de voltar, dizia eu, todos os que éramos felizes com a idéa de que no futuro, o da Era do Espírito Santo, da plenitude de Deus, em sua fusão com o que criara, estaríamos em êxtase diante do Divino que em tudo de concreto íamos ver, sem que, no entanto, deixasse seu outro reino do abstracto. Todos os Meninos seriam então os primeiros dos homens verdadeiramente inspirados, dedicados ao mundo, como aquele que, na Trindade que Cabral levou ao Brasil, a de Belmonte, está no braço da Criatividade Suprema, dando de comer a pomba, isto é, ajudando à sacralização do Universo. A vida ficaria gratuita, com símbolo na comida gratuita do dia da Festa. Finalmente desapareceriam as prisões e estariam libertos seus presos e seus guardas. Só que aquela extraordinária linha de costa que definia Portugal, não uma simples praia para um mar, mas inteiro litoral para um interminável oceano, era o ponto donde partir à conquista do que não tomara no período clássico aquele Império Romano que teria, portanto, de abordar tôdas as terras. Navegação esta que foi proeza dos Portugueses, mas não a que teria sido mais importante, a daqueles que, como missionários, teriam implantado em todo o mundo o Reino do Espírito Santo.

Entretanto, guardados no Brasil para o futuro, tinham feito tôdas as tentativas para chegarem ao Pacífico, mas não como Magalhães, demasiado servidor da Europa. Até Pedro Teixeira o quis, mas já era tarde, com a força espanhola instalada nos planaltos. O tempo dessa navegação, última e perfeita, chegou agora e de alguma parte dela talvez nos traga informe alguma destas Folhinhas para que tendes paciência.

Lua Luar dum Maio do 93.



POETAS DE FORA EM LINGUAGEM DE DENTRO

Alemanha


Heinrich Heine 1797-1856

Quando olho para os teus olhos
dor e tristeza se vão
e quando beijo teus lábios
fico sempre mais que são.

Quando me encosto a teu peito
entra em mim a luz do céu,
mas quando dizes: “Eu te amo!”
choro eu à larga e sem véu.



Nicolas Lenau 1802-1850

Passa a lua devagar
por sobre as águas do lago
ao verde canavial
junta rosas luar mago

Erguem ao céu grandes olhos
os veados na colina,
às vezes um bater de asas
às ternas canas inclina.

Meus olhos ficam chorando
e bem dentro da minha alma
o ter saudades de ti
é prece na noite calma


Eduard Morike 1804-1875

Na verde terra de estio
há juncos perto do rio.
Que inocência de menino
ao colo dela com tino,
dela, a Virgem sua mãe,
no carinho que o retém.
Mas bem perto, em doce luz,
já na árvore cresce a cruz.

2 comentários:

Anónimo disse...

Luís,

Comecei agora a ler Agostinho da Silva...e ainda não estou familiarizada com a simbologia que ele adota.

Mas uma coisa ficou clara para mim, Agostinho da Silva dá-nos a perspectiva da missão lusofonia/lusófono/Pátria da Língua portuguesa e do que carateriza os povos: brasileiro, português, africano, timorense, etc.

O Reino do Espirito Santo é o da partilha que ele tanto defende e que tem a ver com a cultura portuguesa nos tempos medievais?

E os portugueses foram expulsos de Portugal há mais de 500 anos? Para poderem SER "portugueses à solta", já que em Portugal ou são sardinha em conserva ou a lata da conserva? E para cumprirem o "Portugal" em várias latitudes? O Luís que é agustiano deve ter facilidade em explicar as simbologias de A. S.

Gostei de ler mais esta carta de Agostinho da Silva. Continue partilhando o que escreveu.

Parabéns.

Margarida

Luis Santos disse...

Margarida (todos),

vamos lá então ao difícil desafio de responder ás suas inteligentes questões
sobre Agostinho da Silva, eu que também sou simplesmente um iniciado na
sapiência de tão ilustre Professor.

Antes de mais, os parabéns que dá ao blog devem-se estender aos Diálogos
Lusófonos porque são eles que, em grande medida, o enriquecem. E, sem
dúvida, que este blog é de nós todos.

Agostinho da Silva foi um dos pioneiros da ideia de criação da CPLP. Ele e
mais o seu amigo José Aparecido de Oliveira, ex-embaixador do Brasil em
Portugal. Mais do que isso, Agostinho prolonga de forma peculiar o espírito
de Camões, do padre António Vieira, de Fernando Pessoa, António Quadros e
Jaime Cortesão, entre outros, sobre os desígnios da Língua Portuguesa no
mundo. Para simplificar podemos partir da máxima de Fernando Pessoa quando
afirma que a sua Pátria é a Língua Portuguesa. E que desígnios são esses?
Não se sabe ao certo, mas decerto que serão os que formos capazes de
construir, nós todos os que herdámos, partilhamos e nos entendemos com esta
Língua.

Agostinho fala do Culto Popular do Espírito Santo, simplesmente, como o ouvi
dizer, porque foi o período da História da Língua Portuguesa, onde ele
verificou que esses desígnios da construção de um futuro auspicioso para
todos nós se verificaram com maior força. Atravessávamos o século XIII e é
D. Dinis Rei de Portugal casado com a Rainha Santa Isabel, de Aragão. É ela
que institui o Culto. Em resumo, cito Agostinho da Silva, para percebermos
do que se trata. "Criança como a melhor manifestação da poesia pura e como
inspiradora e suporte, e incitadora a ser criança de todos os que existam. O
gratuito da vida. A plena liberdade de todo o ser." (Ver cartas publicadas
pela Casa de Estudos, onde a ideia aparece mais desenvolvida).

Esta ideia de liberdade, onde cada um é único e tem tanta importância como
qualquer outro, dá a ideia do poeta à solta. Aquele que está livre para
cumprir a sua vida da forma mais certa, no momento mais justo. Só em
liberdade plena se pode cumprir a sagrada imprevisibilidade que caracteriza
a própria vida.

A partir do reinado de D.Dinis dá-se uma maior hegemonia católica em
Portugal, tendo sido perseguidos e expulsos indivíduos que professavam
outros credos religiosos. Ora, para um espírito ecuménico uiversalista como
é o de Agostinho não pode deixar de criticar todos esses acometimentos e
acha que, finalmente, chegou a altura da Língua Portuguesa se redimir e,
partir, então para "a construção do tal império, perfeito e último".

E como a resposta já vai longa vamos mesmo ficar por aqui, mas claro que
voltaremos sempre que seja necessário,

mais aquele abraço,
Luis Santos.